Segue a actualidade social e política portuguesa?.Mais ou menos. O computador vai-me dando informação..Vai sabendo que Portugal está numa crise económica?.Vou sabendo..Que comentário lhe merece a situação actual do País?.Eu acho que não é só Portugal, é o mundo. Sente-se. Nas viagens que eu faço, vou sentindo, em todos os países..Sentiu nalgum em especial?.Sim, sim. Na Alemanha..Há pouco tempo esteve na Grécia. Viu alguma coisa?.Na Grécia sente-se bastante, na Alemanha também, na França... não se pode dizer que não se sente. Sente-se, e as pessoas vão levando. Há pessoas que levam de uma forma mais inteligente, outras, que sofrem mais, menos inteligente. Eu acho que nós, portugueses, estamos a levar esta crise de uma forma bastante inteligente; estamos a dar tempo. Porque tudo precisa de tempo. Isto é cíclico! Se formos estudar, se formos ver na História, é cíclico. Acontece sempre coisas que vão mudando a nossa sociedade, a nossa forma de estar, o nosso comodismo. Portanto, vamos esperar. Vai passar. Com inteligência..Não tem uma visão crítica da forma como o País tem sido dirigido pela classe política?.Sabe, eu não me envolvo muito em política. Guardo essas opiniões para mim porque não quero ferir susceptibilidades de ninguém. .É para não reduzir o seu público?.Não tem a ver com isso. Tem a ver....Quando diz isso, está a pensar no negócio?.Negócio?! A música para si é um negócio?!.A Mariza é uma mulher de direita ou de esquerda?.Não vou comentar, isso é secreto! .E não o faz?.Não o faço. Eu não comento política, futebol, religião. .Faz isso por contraposição, até, àquilo que se passou com a carreira de outros colegas seus?.Por acaso nem é por isso. É uma forma de estar minha. Eu falo muito dessas coisas com a minha família... Obviamente que tenho opinião, meu Deus!.Com certeza que vota....Obviamente! Eu não sou uma tonta qualquer que pinta o cabelo de loiro, que gosta de usar os vestidos e sobe ao palco! Eu tenho uma opinião, como qualquer pessoa. Não gosto é de a expressar em público. Expresso-a à minha família, quando estou em família, em conversas mais sérias. Acho que é aí que devo expressar a minha opinião. Assim como o voto é secreto. Não digo que a opinião seja secreta, mas é uma coisa muito pessoal, que já tem muito a ver com o interior da minha casa..Com certeza que a Mariza, pela posição que ocupa na sociedade portuguesa, já teve vários convites para apoiar esta ou aquela personalidade política portuguesa..Acho que sim. (risos).Quando foi a última vez que esteve em Moçambique?.Há cerca de seis meses..Sente alguma coisa quando lá volta?.Muito! Toda a minha família mora lá. A minha avó, os meus tios... a minha mãe tem 16 irmãos, moram todos lá. Eu tenho 30 primos direitos que moram lá!.Canta para eles?.Eles vêm assistir aos concertos. A minha avó não sabe muito bem como lidar com isso, fica um bocadinho desconfiada..Porquê? É por ver muita gente?.Não sei... Porque aquilo que a minha avó vê em casa é a neta dela, não é? Eu cozinho, lavo a loiça, ajudo a arrumar, ponho a mesa, vou às compras, falo com os empregados - porque em África há sempre empregados: "Olhe, agora ponha os frangos a assar. Agora vamos fazer o arroz..." E a minha avó está habituada a ver essa neta. Agora, quando chega a um teatro e vê a neta em cima de um palco a cantar... já é diferente..Qual foi o momento mais alto da sua carreira?.Eu não gosto de chamar carreira. Gosto de lhe chamar percurso. Se nós falarmos daqui a dez, quinze anos, talvez possa falar de uma carreira. Mas para já, é um percurso, pequeno, satisfatório. Eu vou falar disto antes do tempo... Fui ordenada Chevalier des Arts pelo Estado francês, e acho que isso é um momento fantástico. Se fosse inglês, seria uma lady. Em francês, não sei..Posso ouvir isto, também, como uma crítica às distinções que ainda lhe faltam em Portugal?.Não, não! Em Portugal, eu sou comendadora. Já me chega. Já dizem que sou embaixadora do Fado. Já me chega. Sou embaixadora da candidatura para a UNESCO. Já me chega. Sou embaixadora da Unicef. Já me chega. Já tenho muitos títulos! (risos).Já leva quase uma década de carreira. Desde que editou o Fado em Mim, ainda não passaram dez anos. Que balanço faz dessa sua vida passada entre concertos, álbuns, digressões?.Extremamente positivo. Mas muito rápido. Aconteceu tudo tão rápido. Parece que aconteceu ontem. Às vezes tenho noção de que as coisas aconteceram há dois anos, mas já não foi há dois anos: foi há cinco ou seis! É incrível a noção do tempo. Como eu também tenho uma vida que é muito corrida, muitas vezes não tenho a noção do tempo, e passa tudo muito rápido..Muito corrida no sentido de viajar, de andar de um lado para o outro?.De viajar muito, de andar de um lado para o outro. A maior parte das vezes, é uma noite em cada hotel, uma cidade e um teatro diferente. Viagem, hotel, teatro: quando estou em tournée, é assim quase todos os dias. O tempo passa a correr. Parece que ainda há pouco comecei o ano, e já estamos perto do Natal, o ano está a terminar... Foi tudo tão rápido e tão fantástico. Têm sido anos maravilhosos. Não me posso queixar. Olhe, aqui entre nós - quer dizer, toda a gente nos ouve -, eu acho que sou uma privilegiada.